Em outubro de 2025, entrou em vigor na Inglaterra uma das legislações mais rigorosas do mundo para combater um problema que, durante décadas, foi tratado apenas como uma questão de manutenção predial: o mofo.
A nova regulamentação, conhecida como Awaab’s Law, estabelece prazos obrigatórios para que administradores de habitações sociais respondam a denúncias de umidade e crescimento de fungos. A mudança representa um marco importante porque reconhece oficialmente que o mofo não é apenas um problema estético, mas também uma questão de saúde pública.
Embora a legislação ainda se aplique apenas às moradias sociais, o governo britânico já anunciou que pretende expandir regras semelhantes para o mercado privado. Trata-se de uma resposta a um problema que afeta milhões de residências no país e que, durante anos, foi subestimado.
O caso que mudou a forma de enxergar o mofo
A origem da nova legislação remonta ao caso de Awaab Ishak, um menino de dois anos que vivia com sua família em uma habitação social na cidade inglesa de Rochdale.
Durante meses, a família relatou ao administrador do imóvel problemas persistentes de umidade e mofo, sem que medidas efetivas fossem adotadas para eliminar a origem da contaminação.
Em novembro de 2022, o legista responsável pela investigação concluiu que a exposição prolongada ao mofo foi um fator determinante para a morte da criança. A conclusão provocou forte repercussão em todo o Reino Unido e colocou a qualidade das moradias no centro do debate público.
No ano seguinte, o Parlamento aprovou a Social Housing (Regulation) Act 2023, que deu origem à chamada Awaab’s Law. A primeira fase da legislação entrou em vigor em outubro de 2025.
O que a nova lei determina?
Ao contrário do que muitos imaginam, a legislação não obriga simplesmente a remover o mofo das paredes. Ela exige que os responsáveis pelas habitações investiguem e solucionem as causas do problema.
Pelas novas regras, denúncias de umidade e mofo devem ser inspecionadas em até 10 dias úteis. Após a inspeção, caso sejam identificados riscos à saúde, medidas para tornar o imóvel seguro devem ser iniciadas em até cinco dias úteis.
Situações consideradas mais graves (como quando o mofo já está afetando a saúde do morador) exigem resposta em até 24 horas.
Se os reparos não puderem ser realizados dentro dos prazos estabelecidos, os administradores deverão oferecer acomodação alternativa aos moradores. O descumprimento das obrigações pode resultar em ações judiciais por quebra das responsabilidades contratuais.
A principal mensagem da nova legislação é clara: não basta limpar o mofo. É necessário eliminar a causa que permite seu crescimento.
Por que o mofo é um problema tão frequente na Inglaterra?
O Reino Unido reúne uma combinação de fatores que favorece o desenvolvimento de fungos em ambientes internos.
O clima oceânico mantém elevados níveis de umidade durante boa parte do ano. As temperaturas mais baixas favorecem a condensação do vapor d’água em paredes, tetos e janelas. Soma-se a isso um grande número de edificações antigas e, mais recentemente, construções cada vez mais estanques para melhorar a eficiência energética.
Quando a ventilação não acompanha esse aumento da vedação, a umidade permanece retida dentro dos ambientes, criando condições ideais para o crescimento de fungos.
Especialistas britânicos lembram que o comportamento dos moradores também influencia esse cenário. Secar roupas dentro de casa, manter pouca ventilação ou não controlar adequadamente a umidade pode acelerar o aparecimento do mofo. No entanto, problemas estruturais, como infiltrações, falhas de impermeabilização, vazamentos ou drenagem inadequada, são responsabilidades dos proprietários e administradores das edificações.
Essa distinção foi um dos pontos centrais da discussão que levou à criação da nova legislação.
Um problema de saúde pública, não apenas de manutenção
A mudança de abordagem no Reino Unido também reflete o impacto do mofo sobre a saúde da população.
Segundo estimativas do Building Research Establishment (BRE), más condições habitacionais geram um custo anual de aproximadamente £ 1,4 bilhão para o sistema público de saúde britânico (NHS). Embora esse valor englobe diferentes problemas das edificações, ambientes frios, úmidos e com mofo representam uma parcela importante desse impacto.
Dados da English Housing Survey mostram ainda que, em 2023, cerca de 3,8 milhões de residências na Inglaterra não atendiam aos padrões mínimos de qualidade habitacional, sendo os imóveis alugados no mercado privado os que apresentavam maior proporção de inadequações.
Esses números ajudam a explicar por que o governo britânico deixou de tratar o mofo apenas como uma questão de conservação predial e passou a encará-lo como um tema de saúde coletiva.
Incidência de Mofo no Brasil
A realidade brasileira também exige atenção. Em diversas regiões do país, especialmente em cidades litorâneas como Rio de Janeiro e Salvador, a combinação entre altas temperaturas e elevada umidade relativa do ar favorece a proliferação de fungos em residências, hotéis, hospitais, escolas e edifícios corporativos.
O risco é ampliado pelo uso frequente de materiais sensíveis à umidade, como drywall e MDF, que podem ser rapidamente comprometidos quando expostos a infiltrações, vazamentos, condensação ou falhas nos sistemas de climatização.
No campo normativo, a ABNT NBR 17037 estabelece 65% como limite máximo de umidade relativa em ambientes não residenciais climatizados artificialmente. Acima desse patamar, aumentam o desconforto dos ocupantes, o risco de contaminação microbiológica e a possibilidade de condensação sobre paredes, janelas e dutos, criando condições favoráveis ao crescimento de fungos e bolor.
Apesar disso, o problema ainda costuma ser tratado como uma questão de limpeza ou manutenção estética, sem uma investigação adequada de suas causas.
O que essa experiência ensina para edifícios corporativos?
Embora a Awaab’s Law tenha sido criada para habitações sociais, seu princípio pode ser aplicado a praticamente qualquer ambiente interno.
Em edifícios corporativos, hotéis, hospitais, escolas e indústrias, o aparecimento de mofo normalmente é consequência de condições inadequadas de umidade, ventilação ou manutenção dos sistemas de climatização.
Nesses ambientes, a simples remoção das manchas visíveis dificilmente resolve o problema de forma permanente. Sem eliminar as causas — como infiltrações, condensação, renovação insuficiente do ar ou falhas no sistema HVAC — os fungos tendem a retornar.
As consequências vão muito além da deterioração das edificações. A exposição contínua a ambientes com presença de mofo pode agravar doenças respiratórias, desencadear crises alérgicas e provocar irritações nas vias aéreas, especialmente em pessoas mais sensíveis. No ambiente de trabalho, esses efeitos podem se traduzir em aumento do absenteísmo, queda da produtividade, maior sensação de indisposição e desconforto durante a jornada, além de impactar o bem-estar geral dos colaboradores.
O risco é ainda maior quando o problema passa despercebido e a exposição se prolonga por meses ou anos, permitindo que um ambiente aparentemente normal se transforme em um fator silencioso de comprometimento da saúde e do desempenho das pessoas.
Gestão de Facilities voltada à qualidade do ar
Para gestores de facilities, esse cenário reforça que a qualidade do ar interior deve ser tratada como parte da estratégia de operação e manutenção dos edifícios, e não apenas como uma resposta a reclamações pontuais.
Assim como demonstra a experiência inglesa, agir apenas quando o mofo aparece significa atuar sobre o efeito, e não sobre a causa. Uma gestão eficiente da qualidade do ar interno combina inspeções técnicas, controle da umidade, ventilação adequada, manutenção dos sistemas HVAC e estratégias de descontaminação de ambientes capazes de reduzir continuamente fungos, vírus, bactérias e Compostos Orgânicos Voláteis (COVs).
Com mais de 1 milhão de metros quadrados de ambientes tratados, a Ecoquest é hoje uma das principais referências nacionais em qualidade do ar interior para edifícios corporativos, hospitais, escolas, hotéis e indústrias.
Utilizando tecnologias de última geração, como a radiação UVGI e a Fotohidrólise Avançada, que atuam continuamente mesmo com os ambientes ocupados, a empresa desenvolve projetos personalizados para recuperação e proteção de ambientes internos. Mais do que eliminar o mofo visível, o objetivo é controlar as condições que favorecem seu desenvolvimento e oferecer aos ocupantes ambientes mais saudáveis, seguros e produtivos.
Fonte: https://www.bbc.com/news/articles/cpwvzxzzxrxo
