A operação de sistemas AVAC em edifícios corporativos costuma ser orientada por dois objetivos principais: manter o conforto térmico e reduzir o consumo de energia. Embora ambos sejam importantes, decisões tomadas para atingir esses objetivos podem comprometer a qualidade do ar interior quando a renovação do ar deixa de ser tratada como prioridade.
No Brasil, esse desafio é ainda maior. Como a maioria dos edifícios comerciais possui sistemas de climatização projetados apenas para resfriamento, gestores frequentemente adaptam a operação do AVAC conforme as condições climáticas de cada estação. O problema é que essas adaptações, quando realizadas sem considerar seus impactos sobre a ventilação e a umidade, podem favorecer o acúmulo de contaminantes, aumentar o risco de doenças respiratórias e até colocar a edificação em desacordo com requisitos normativos.
O erro mais comum no inverno: fechar a entrada de ar externo
Diferentemente de países de clima frio, a maior parte dos sistemas AVAC instalados em edifícios comerciais brasileiros não possui serpentinas de aquecimento ou resistências elétricas para aquecer o ar de renovação. Quando as temperaturas caem, é comum reduzir a abertura dos dampers para evitar a entrada de ar frio e facilitar o controle da temperatura interna.
Essa prática diminui a carga térmica do sistema, mas também reduz a renovação do ar. Como consequência, o dióxido de carbono (CO₂) produzido pelos ocupantes deixa de ser adequadamente diluído, podendo atingir concentrações associadas à sonolência, dores de cabeça, perda de concentração e redução da produtividade.
Ao mesmo tempo, vírus e bactérias permanecem suspensos por mais tempo no ambiente. Como o inverno coincide com o aumento da circulação de doenças respiratórias, a menor ventilação favorece a transmissão de bioaerossóis entre os ocupantes, contribuindo para o aumento do absenteísmo.
Outro efeito pouco lembrado é o acúmulo de Compostos Orgânicos Voláteis (COVs) liberados continuamente por carpetes, mobiliário, tintas, adesivos e produtos de limpeza. Sem renovação suficiente, esses contaminantes permanecem confinados no ambiente, aumentando o desconforto e a irritação das vias respiratórias.
Existe ainda um paradoxo importante: embora o inverno brasileiro seja mais seco, ambientes muito ocupados liberam continuamente vapor d’água por meio da respiração e da transpiração. Quando essa umidade encontra superfícies frias, como janelas, paredes ou dutos, pode ocorrer condensação, favorecendo o crescimento de fungos e bolor.
O erro mais comum no verão: economizar energia reduzindo a ventilação
No verão, o raciocínio costuma ser diferente, mas o resultado é semelhante.
O ar externo chega ao edifício com temperatura elevada e, em boa parte do país, com alta umidade. Para climatizar esse ar, o sistema AVAC precisa resfriá-lo e remover parte dessa umidade antes de distribuí-lo aos ambientes internos, aumentando significativamente o consumo de energia.
Quando o sistema foi subdimensionado ou quando o objetivo é reduzir a conta de energia, muitos gestores de facilities diminuem a vazão de ar externo para aliviar a carga térmica. Embora essa estratégia reduza temporariamente o consumo elétrico, ela cria condições favoráveis para a degradação da qualidade do ar.
Com menor ventilação, o CO₂ e os COVs voltam a se acumular. Além disso, a combinação entre calor e umidade aumenta o risco de condensação em grelhas, dutos e outras superfícies frias, favorecendo a proliferação de fungos, bactérias e mofo. O resultado é um ambiente climatizado, mas com maior potencial de contaminação microbiológica.
Temperatura não é o único indicador de um AVAC eficiente
Outro equívoco frequente é operar o sistema apenas pelo set point de temperatura. Na prática, muitos edifícios mantêm escritórios entre 22 °C e 24 °C, mas deixam de controlar parâmetros igualmente importantes para a qualidade do ar.
Uma operação eficiente deve considerar, no mínimo:
- temperatura do ambiente;
- umidade relativa do ar;
- vazão de ar externo;
- concentração de CO₂;
- condições de filtragem e ventilação.
A própria ABNT NBR 17037 estabelece limites para a umidade relativa e para a concentração de CO₂ em ambientes climatizados. Quando esses parâmetros deixam de ser monitorados, é possível encontrar edifícios aparentemente confortáveis, mas com umidade elevada, ventilação insuficiente e condições favoráveis ao desenvolvimento de contaminantes microbiológicos.
A economia de energia pode sair mais cara
Reduzir a entrada de ar externo pode representar uma economia imediata na operação do sistema AVAC, mas essa decisão nem sempre resulta em menor custo para a organização.
Ambientes com ventilação insuficiente tendem a apresentar maior incidência de doenças respiratórias, aumento do absenteísmo, queda da produtividade, crescimento de reclamações relacionadas ao conforto ambiental e maior risco de problemas associados a fungos e umidade. Além disso, a redução da renovação do ar pode comprometer o atendimento aos requisitos da ABNT NBR 17037 e às exigências do PMOC previstas na Lei Federal nº 13.589/2018.
Em outras palavras, uma economia obtida na conta de energia pode ser rapidamente anulada por perdas operacionais, custos de manutenção corretiva e riscos de não conformidade.
Conclusão
A operação do AVAC deve acompanhar as características de cada estação do ano sem comprometer a qualidade do ar interior. Isso significa equilibrar conforto térmico, eficiência energética, renovação do ar e controle da umidade, evitando soluções aparentemente simples que transferem custos para a saúde dos ocupantes e para a operação do edifício.
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