Qualidade do ar interno e Asma: o que mostram as novas diretrizes da European Academy of Allergy and Clinical Immunology (EAACI)

24 de setembro de 2026

Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública – Fiocruz Bahia

Título original do artigo: EAACI Guidelines on Environmental Science for Allergyand Asthma—Recommendations on the Impact of IndoorAir Pollutants on the Risk of New-Onset Asthma and onAsthma-Related Outcomes

Autores: Agache, I., Annesi-Maesano, I., Cecchi, L., Biagioni, B., Chung, F., D’Amato, G., Damialis, A., del Giacco, S., Dominguez Ortega, J., Galán, C., Gilles, S., Holgate, S., Jeebhay, M., Kazadzis, S., Nadeau, K., Papadopoulos, N.G., Quirce, S., Sastre, J., Traidl-Hoffmann, C., Walusiak-Skorupa, J., Zemelka-Wiacek, M., Jutel, M. and Akdis, C.A. (2025),

Periódico: Allergy. 80: 651-676. 

DOI: https://doi.org/10.1111/all.16502

 

Resumo

A relação entre ambiente e doenças respiratórias vem ganhando espaço crescente na prática clínica e na saúde pública. Em 2025, a European Academy of Allergy and Clinical Immunology (EAACI) publicou uma diretriz específica sobre o impacto dos poluentes do ar interior no desenvolvimento de asma e em seus principais desfechos clínicos. O documento avaliou quatro grupos de exposições — compostos orgânicos voláteis (VOCs), produtos de limpeza, umidade e mofo, e pesticidas — utilizando a metodologia GRADE para classificar a certeza das evidências e formular recomendações. Foram considerados tanto indivíduos sem asma, para avaliar o risco de novos casos, quanto pacientes com doença já estabelecida, incluindo exacerbações, controle da asma, qualidade de vida, função pulmonar e uso de serviços de saúde. A relevância do tema começa pelo próprio padrão de exposição da população. As pessoas passam aproximadamente 80% a 90% do tempo em ambientes internos, e as mudanças na construção civil, com maior isolamento térmico e redução das trocas de ar para aumentar a eficiência energética, podem diminuir a entrada de ar fresco caso não sejam acompanhadas de ventilação adequada. Esse equilíbrio entre eficiência energética e ventilação torna-se especialmente importante para pessoas com asma e para crianças, que passam grande parte do dia em escolas e outros ambientes coletivos.

 

Umidade e mofo: a evidência mais consistente

Entre todos os fatores avaliados, umidade e mofo apresentaram a evidência mais robusta para o desenvolvimento de novos casos de asma. A revisão sistemática identificou, com certeza moderada, associação entre diferentes indicadores de umidade e risco aumentado de asma de início recente. A presença de qualquer indicador de umidade foi associada a aumento de aproximadamente 43% no risco de desenvolver asma (OR 1,43; IC95% 1,22–1,67). Para umidade associada ao crescimento de mofo, o OR foi 1,48, e para mofo visível, 1,34. Danos por água também foram associados a maior risco, embora com menor certeza da evidência.

A exposição ao mofo visível ou ao odor de mofo também aparece nas recomendações como fator relacionado ao desenvolvimento da asma. Nos pacientes que já têm a doença, ambientes úmidos e com mofo podem contribuir para exacerbações, pior controle, redução da função pulmonar e pior qualidade de vida. No entanto, para esses desfechos clínicos a certeza da evidência foi menor, o que levou a recomendações condicionais.

Nas crianças, o tema merece atenção especial. Os estudos discutidos pela diretriz apontam que exposição a mofo visível e odor de mofo pode estar associada tanto ao aparecimento da asma quanto às exacerbações. A revisão também destaca que ambientes internos úmidos podem estar relacionados a rinite alérgica, eczema, pneumonite de hipersensibilidade e infecções respiratórias.

Esses achados reforçam que sinais de umidade, infiltrações, condensação e crescimento fúngico não devem ser tratados apenas como problemas de manutenção predial. Eles devem ser considerados indicadores de risco à saúde respiratória.

Produtos de limpeza: exposição doméstica e ocupacional

Outro resultado importante envolve os produtos de limpeza. A diretriz reuniu evidências de ambientes ocupacionais e residenciais e observou associação entre exposição frequente a agentes de limpeza e risco de desenvolvimento ou agravamento da asma.

Entre enfermeiros expostos ocupacionalmente, foi relatado risco relativo ajustado de 1,38 para asma de início recente. Entre trabalhadores da limpeza, a exposição por mais de dez anos esteve associada a RR de 1,50, enquanto a exposição por cinco anos apresentou RR de 1,71, embora com intervalo de confiança mais amplo. Para exposição residencial a sprays de limpeza, o risco de asma diagnosticada por médico foi aproximadamente duas vezes maior (RR 2,11; IC95% 1,15–3,89). A certeza dessas evidências foi classificada como baixa.

Os efeitos também aparecem entre pessoas que já apresentam asma. A exposição ocupacional a produtos de limpeza foi associada a pior controle da doença, com OR de 2,30, enquanto a exposição residencial apresentou OR de 2,05. Para sintomas de asma, os ORs foram 2,19 para exposição ocupacional e 2,50 para exposição residencial. A associação com gravidade da asma foi ainda mais elevada em alguns grupos: OR de 5,10 entre mulheres expostas ocupacionalmente e de 7,20 entre trabalhadores profissionais da limpeza, embora com intervalos de confiança amplos e certeza baixa.

A diretriz chama a atenção para trabalhadores da limpeza e profissionais de saúde, grupos que podem apresentar exposições repetidas a sprays, desinfetantes, água sanitária, amônia e outros produtos irritantes. Entre as medidas preventivas propostas estão substituir produtos mais irritantes quando possível, reduzir o uso desnecessário de desinfetantes, evitar apresentações em spray, nunca misturar produtos químicos e fortalecer a educação dos trabalhadores sobre uso seguro.

Compostos orgânicos voláteis: sinais importantes, mas ainda com incerteza

Os VOCs constituem um grupo heterogêneo de substâncias liberadas por tintas, materiais de construção, mobiliário, produtos de limpeza, fragrâncias e inúmeros produtos de uso cotidiano. O documento discute compostos como benzeno, formaldeído, tolueno e xilenos, além de outros agentes presentes no ambiente doméstico e ocupacional.

Para novos casos de asma, as associações encontradas para benzeno, formaldeído, tolueno e xilenos foram inconsistentes e classificadas como de certeza muito baixa. A exposição ao formaldeído foi a que apresentou sinal mais consistente para novo aparecimento de sibilância, ainda assim com baixa certeza da evidência.

Entretanto, nos desfechos relacionados à piora dos sintomas, alguns resultados chamam a atenção. A revisão encontrou associação entre exposição a VOCs e episódios de dispneia noturna ou aperto torácico, com OR de 9,9 para VOCs totais, 12,5 para formaldeído e 4,9 para tolueno. Esses números parecem elevados, mas devem ser interpretados com cautela porque os intervalos de confiança foram amplos e a certeza da evidência foi considerada muito baixa.

A plausibilidade biológica dessas associações é reforçada pelos mecanismos descritos. Os VOCs podem contribuir para dano à barreira epitelial, redução da depuração mucociliar, estresse oxidativo, inflamação e alterações imunológicas. Produtos de pintura, por exemplo, podem manter altas concentrações de VOCs no ambiente por semanas, e a exposição à tinta foi associada a maior risco de crises de asma em crianças.

A diretriz também destaca que os efeitos dos poluentes não ocorrem de forma isolada. A intensidade da resposta depende da concentração, duração da exposição, momento da vida em que ela ocorre, coexposições e características individuais de resiliência. O chamado exposoma indoor inclui não apenas substâncias químicas, mas também alérgenos, vírus, endotoxinas e outros fatores capazes de interagir entre si.

Pesticidas no ambiente interno

Os pesticidas apresentaram evidências mais limitadas, mas alguns resultados sugerem possível associação com asma. A exposição a inseticidas foi associada a OR de 1,75 para novos casos, e a herbicidas, a OR de 2,12, embora os intervalos de confiança tenham incluído a possibilidade de ausência de efeito. Não foi demonstrada associação consistente entre exposição a pesticidas e baixa função pulmonar; para esse desfecho, o OR foi 1,12. A certeza da evidência foi baixa ou muito baixa.

Por esse motivo, as recomendações também foram classificadas como condicionais. Ainda assim, a EAACI considera prudente reduzir exposições desnecessárias, particularmente em grupos mais vulneráveis.

Da evidência para a prática clínica

Um dos avanços mais interessantes da diretriz é propor que a avaliação ambiental seja incorporada ao cuidado clínico da pessoa com asma. O profissional de saúde deveria investigar não apenas os sintomas e o tratamento medicamentoso, mas também onde e como o paciente está exposto.

A lista proposta inclui características do edifício, temperatura, umidade, ventilação, sistemas de climatização, fontes de combustão, tabaco, umidade, mobiliário, produtos de limpeza, produtos de uso pessoal e fontes externas de poluição. A recomendação é avaliar os diversos ambientes em que o paciente passa tempo: casa, escola, trabalho e espaços internos de lazer.

Essa abordagem amplia a compreensão da asma como uma doença fortemente influenciada pelo ambiente. Em vez de considerar o paciente isoladamente, passa-se a considerar também o conjunto de exposições que compõem seu cotidiano.

Monitoramento também é intervenção

Outro aspecto relevante é a ênfase crescente no monitoramento contínuo da qualidade do ar interior. A EAACI considera que sensores multipoluentes podem fornecer dados em tempo real sobre parâmetros como VOCs e umidade e que sistemas pessoais de monitoramento e alerta podem ser particularmente úteis para indivíduos vulneráveis.

O documento organiza as medidas de adaptação em quatro grandes estratégias: reduzir ou eliminar a fonte do poluente; aumentar a ventilação com ar externo limpo; utilizar purificação ou filtração do ar; e adotar monitores pessoais e sistemas de alerta.

Purificadores portáteis e melhorias nos filtros dos sistemas HVAC podem contribuir para reduzir alguns contaminantes, mas a diretriz alerta que nenhuma tecnologia elimina todos os poluentes. Também existem lacunas importantes na padronização dos testes de eficiência para remoção de VOCs.

Escolas e ambientes coletivos

As escolas aparecem como ambientes estratégicos porque concentram crianças por períodos prolongados e representam locais onde intervenções podem alcançar grande número de pessoas. Programas de melhoria da qualidade do ar em escolas mostram potencial, embora custos e limitações estruturais ainda dificultem a adoção de intervenções mais amplas. Na prática, muitas iniciativas acabam concentradas em campanhas educativas e estratégias de ventilação, cujo sucesso depende também da participação dos ocupantes.

A dimensão educacional é, portanto, parte da própria intervenção. A diretriz cita programas voltados ao reconhecimento de sinais de má qualidade do ar, práticas de ventilação, construção e reforma de ambientes e redução de fontes de poluentes. Entretanto, ainda existe um importante déficit de conhecimento da população: em uma pesquisa europeia de 2022 citada no artigo, apenas 27% dos entrevistados haviam ouvido falar dos padrões de qualidade do ar da União Europeia.

Do cuidado individual à política pública

Talvez uma das mensagens mais fortes do documento seja que a responsabilidade pela qualidade do ar interior não pode ser transferida apenas para o indivíduo. Abrir janelas, trocar produtos de limpeza ou utilizar purificadores podem ajudar, mas mudanças populacionais exigem regulamentação, padrões técnicos, monitoramento e políticas de prevenção.

A EAACI recomenda que gestores públicos utilizem as evidências para desenvolver estratégias de mitigação e adaptação e ressalta a importância da implementação de padrões de qualidade do ar. O documento cita iniciativas da OMS, da União Europeia e da EPA, além de instrumentos voltados especificamente à proteção de crianças em escolas e creches.

Essa perspectiva é particularmente importante para populações vulneráveis e comunidades de baixa renda, onde a capacidade de adaptar o ambiente individualmente costuma ser menor. Nesses contextos, políticas públicas e medidas estruturais podem produzir benefícios muito maiores do que recomendações exclusivamente individuais.

 

Mensagem Ecoquest

As novas diretrizes da EAACI reforçam uma mudança importante de paradigma: a asma não deve ser entendida apenas como uma condição clínica tratada com medicamentos, mas também como uma doença influenciada pelas condições ambientais em que as pessoas vivem, estudam e trabalham.

Mofo, umidade, produtos de limpeza, VOCs e pesticidas fazem parte de uma rede de exposições que pode contribuir para o aparecimento da doença ou para sua piora. Embora ainda existam lacunas importantes na literatura, as evidências atuais já são suficientes para justificar ações preventivas.

Melhorar a qualidade do ar interior significa atuar simultaneamente sobre fontes de poluição, ventilação, manutenção predial, monitoramento, educação e políticas públicas. Significa também reconhecer que respirar um ar saudável dentro dos ambientes que ocupamos todos os dias deve ser entendido como parte da promoção da saúde e da prevenção das doenças respiratórias.

Referência: Agache I, Annesi-Maesano I, Cecchi L, et al. EAACI Guidelines on Environmental Science for Allergy and Asthma—Recommendations on the Impact of Indoor Air Pollutants on the Risk of New-Onset Asthma and on Asthma-Related Outcomes. Allergy. 2025;80:651–676. doi:10.1111/all.16502.

Logo Ecoquest

A Ecoquest

Somos uma empresa com ampla experiência em soluções para tratamento do ar interno e do ar de exaustão, construindo histórias de sucesso em diferentes segmentos do mercado.

Artigos Relacionados

Umidade e mofo não afetam só o ar que você respira: afetam a saúde mental de quem ocupa o espaço

Monitoramento do ar em tempo real nas escolas usando sensores nos EUA: benefícios. barreiras e oportunidades

Estudo europeu acende alerta para poluentes químicos em escolas e universidades

Inscreva-se em Nossa Newsletter

Ao se inscrever você concorda com os termos da Política de Privacidade