Mofo e micotoxinas na saúde neurológica

3 de novembro de 2026

Qualidade do ar interior e os limites das evidências sobre efeitos no cérebro

Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública – Fiocruz Bahia

O mofo em ambientes internos exige atenção à saúde e à manutenção das edificações. Seus efeitos respiratórios são bem documentados; os possíveis impactos neurológicos ainda estão em investigação. Este boletim apresenta os principais pontos da revisão de Ehsanifar e colaboradores e suas implicações para a prevenção.

O que o artigo discute

Publicado em 2023 no Journal of Integrative Neuroscience, o artigo “Mold and Mycotoxin Exposure and Brain Disorders” reúne estudos sobre exposição a fungos e micotoxinas e possíveis alterações neurológicas, cognitivas e emocionais. Os autores discutem mecanismos biológicos plausíveis, mas também relatam resultados conflitantes.

A leitura exige uma distinção importante: identificar uma associação ou um mecanismo experimental não demonstra, por si só, que o mofo em uma edificação tenha causado uma doença neurológica. Ainda assim, a presença de umidade excessiva e crescimento fúngico justifica medidas de prevenção e correção.

O que são micotoxinas

Micotoxinas são substâncias produzidas por determinados fungos, incluindo espécies dos gêneros Penicillium, Aspergillus e Fusarium. A produção depende da espécie e das condições ambientais. Um fungo pode produzir diferentes micotoxinas, e uma mesma micotoxina pode ser produzida por fungos distintos.

Além da contaminação de alimentos, o artigo aborda a exposição em ambientes úmidos, com materiais e poeira contaminados. Paredes, forros, cavidades e componentes dos sistemas de climatização podem abrigar crescimento fúngico. A presença de mofo, porém, não permite determinar sozinha a quantidade de micotoxinas nem o risco individual de adoecimento.

Possíveis mecanismos de ação no sistema nervoso

A revisão discute estresse oxidativo, inflamação, disfunção mitocondrial, alterações imunológicas e possível comprometimento da barreira hematoencefálica. Também aborda a via olfatória como uma possível rota de acesso de componentes associados à exposição ao cérebro.

Esses mecanismos ajudam a formular hipóteses de pesquisa. Sua ocorrência em estudos experimentais não equivale à comprovação de efeitos nas condições habituais de exposição dentro de residências, escolas ou escritórios.

Cognição e sintomas neuropsiquiátricos

Entre os estudos citados, há relatos de fadiga, mal-estar, dificuldades de memória e aprendizagem, alterações emocionais e redução da velocidade psicomotora em pessoas expostas a ambientes com mofo. Outros trabalhos descrevem alterações de equilíbrio, tempo de reação e percepção visual.

Os resultados, entretanto, não são uniformes. A própria revisão reconhece pesquisas que não confirmaram associações consistentes. Estresse emocional, condições socioeconômicas e outros problemas de saúde também podem influenciar os sintomas observados. Por isso, não se deve atribuir sintomas inespecíficos ao mofo sem avaliação clínica e investigação de outras causas.

Atenção aos ambientes frequentados por crianças

O artigo cita estudos sobre exposição a mofo ou micotoxinas e possíveis alterações cognitivas e do neurodesenvolvimento. Esses achados devem ser interpretados com cautela e não estabelecem, isoladamente, uma relação causal.

Casas, escolas e creches merecem atenção porque são locais de permanência prolongada. Corrigir infiltrações, controlar a umidade e manter ventilação e climatização adequadas são medidas justificadas pelos riscos respiratórios conhecidos, independentemente das incertezas sobre efeitos neurológicos.

O mofo oculto também precisa ser investigado

Nem toda contaminação aparece como uma mancha na parede. O crescimento fúngico pode ocorrer atrás de revestimentos e armários, em forros, materiais isolantes, cavidades de paredes e componentes de climatização. Odor persistente de bolor e histórico de infiltração são sinais que merecem investigação.

Amostragens pontuais do ar retratam apenas as condições do momento da coleta e podem não identificar fontes ocultas. A avaliação deve considerar a inspeção da edificação, as fontes de umidade, os materiais afetados e o histórico do problema.

Clima e condições de habitação

Enchentes, tempestades e danos por água favorecem o crescimento de mofo quando as edificações permanecem úmidas. Em cidades tropicais e costeiras, como Salvador, calor, umidade e chuvas intensas podem agravar o problema, especialmente em imóveis com falhas de manutenção ou condições habitacionais precárias.

Prevenir a exposição envolve, portanto, manutenção predial, qualidade da habitação e capacidade de resposta a eventos climáticos. As populações com menos recursos para corrigir os danos precisam de atenção nas estratégias de saúde ambiental.

Medidas práticas para ambientes mais saudáveis

Em residências, escolas, unidades de saúde e escritórios, a prioridade é corrigir a origem da umidade e remover as fontes de contaminação. Lembrando que pintar sobre o mofo ou tratar apenas a superfície não resolve a causa do problema.

  1. Corrigir infiltrações, vazamentos e condensação, verificando se a solução foi efetiva.

  2. Garantir ventilação e renovação do ar adequadas, com controle de umidade compatível com o clima e o uso do ambiente.

  3. Secar rapidamente os materiais molhados e avaliar a remoção dos materiais porosos comprometidos, como forros, tecidos e madeira.

  4. Manter filtros, bandejas, serpentinas e demais componentes dos sistemas de climatização em boas condições, incluindo dutos quando aplicável.

  5. Investigar odores persistentes de bolor, mesmo sem manchas visíveis, e buscar avaliação técnica em casos extensos ou recorrentes.

  6. Priorizar a proteção de crianças, idosos, pessoas com asma ou alergias, doenças pulmonares crônicas e imunossuprimidos.

  7. Avaliar tecnologias complementares de redução microbiana conforme sua eficácia, segurança e adequação ao ambiente. Elas não substituem o controle da umidade nem a remoção do material contaminado.

Orientação para gestores

O controle de mofo deve integrar a gestão da qualidade do ar interior, a saúde ocupacional e, nos serviços de saúde, a segurança do paciente. Isso exige rotinas de inspeção, responsáveis definidos, manutenção preventiva e resposta rápida a danos por umidade.

Após a intervenção, é necessário acompanhar as áreas afetadas para confirmar que a fonte de água foi corrigida e que o problema não voltou. Ações preventivas devem fazer parte da operação do edifício, e não depender apenas das reclamações dos ocupantes.

Mensagem Ecoquest

A qualidade do ar interior depende de uma abordagem integrada: controlar a umidade, garantir ventilação adequada, manter os sistemas de climatização e eliminar as fontes de contaminação. Tecnologias complementares devem ser selecionadas com critérios técnicos e aplicadas dentro dessa estratégia.

A discussão sobre possíveis efeitos neurológicos amplia a agenda de pesquisa, mas deve ser comunicada sem transformar hipóteses em certezas. Os riscos respiratórios já conhecidos são motivo suficiente para agir. Prevenir e corrigir o mofo é uma medida concreta de cuidado com a saúde e com os ambientes que ocupamos.

Referência principal
Ehsanifar M, Rajati R, Gholami A, Reiss JP. Mold and Mycotoxin Exposure and Brain Disorders. Journal of Integrative Neuroscience. 2023;22(6):137.

https://doi.org/10.31083/j.jin2206137
Fontes complementares de orientação
CDC. Mold. https://www.cdc.gov/mold-health/about/

NIOSH. Mold, Testing, and Remediation. https://www.cdc.gov/niosh/mold/testing-remediation/index.html

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