Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública – Fiocruz Bahia
Título original do artigo: Association of mold exposure and solid household fuel use with depression and anxiety among older adults in China
Autores: Ma X, Zhao H, Wang Y, Hou M, Liu W, Sun M. Association of mold exposure and solid household fuel use with depression and anxiety among older adults in China.
Periódico: Environmental Health. 2025;24:50. Publicado em 22 de julho de 2025.
2024 Feb;44(1):55-73.
DOI: 10.1186/s12940-025-01193-4.
Resumo
O artigo deste mês analisa a associação entre exposição domiciliar ao mofo, uso de combustíveis sólidos e sintomas de depressão e ansiedade em idosos na China. A pesquisa incluiu 9.243 participantes com 65 anos ou mais e utilizou dados de um estudo longitudinal nacional chinês. A exposição ao mofo foi avaliada pela presença frequente de odor de bolor no domicílio, enquanto o uso de combustíveis sólidos incluiu fontes como carvão, lenha, palha e carvão vegetal.
Os resultados mostraram que idosos expostos ao mofo apresentaram maior chance de sintomas depressivos e ansiosos. A exposição ao mofo esteve associada a mais que o dobro da chance de depressão, ansiedade e coexistência dos dois quadros. O uso de combustíveis sólidos também foi associado a maior ocorrência desses sintomas, especialmente quando combinado com a presença de mofo no ambiente doméstico.
O estudo reforça que a qualidade do ar interior deve ser compreendida não apenas como um fator relacionado a doenças respiratórias e alergias, mas também como um possível determinante da saúde mental, especialmente em populações vulneráveis, como os idosos. Ambientes úmidos, mofados e poluídos por combustão doméstica podem contribuir para inflamação, estresse oxidativo, desconforto ambiental e piora do bem-estar psicológico.
Assim, o artigo destaca a importância de prevenir e controlar o mofo, melhorar a ventilação, corrigir fontes de umidade e reduzir o uso de combustíveis sólidos em ambientes internos. Essas medidas são fundamentais para promover moradias mais saudáveis e proteger a saúde física e mental dos ocupantes.
Introdução
A qualidade do ar em ambientes internos tem sido tradicionalmente discutida a partir de seus impactos respiratórios, alérgicos, infecciosos e cardiovasculares. No entanto, evidências recentes ampliam esse campo de atenção ao sugerir que exposições ambientais domiciliares, como mofo, umidade persistente e poluição gerada pela queima de combustíveis sólidos, também podem estar relacionadas a desfechos de saúde mental, especialmente em populações mais vulneráveis.
O artigo publicado em 2025 na revista Environmental Health analisou a associação entre exposição a mofo, uso de combustíveis sólidos para cozinhar e sintomas de depressão e ansiedade em idosos chineses. Trata-se de um tema relevante para a saúde ambiental, pois idosos tendem a passar mais tempo dentro de casa e, portanto, podem acumular maior exposição a contaminantes presentes no ambiente interno. O estudo destaca que o mofo é um poluente interno modificável e que sua presença pode ocorrer por infiltrações, umidade, ventilação inadequada, acúmulo de materiais e manutenção insuficiente dos ambientes domésticos.
Os autores buscaram responder se idosos expostos a ambientes com odor de mofo ou bolor e/ou que utilizavam combustíveis sólidos apresentavam maior chance de sintomas depressivos e ansiosos quando comparados àqueles sem exposição a mofo e que utilizavam combustíveis limpos, como gás, eletricidade ou energia solar.
A pesquisa também chama atenção para os combustíveis sólidos, como carvão, lenha, palha e carvão vegetal, que, quando utilizados para cocção, liberam material particulado fino e outros poluentes capazes de contribuir para inflamação sistêmica, estresse oxidativo e agravos respiratórios e cardiovasculares. Esses mecanismos são apontados pela literatura como possíveis vias biológicas associadas a sintomas depressivos e ansiosos.
Objetivo do estudo
O objetivo do estudo foi avaliar as associações individuais e combinadas entre exposição domiciliar a mofo e uso de combustíveis sólidos para cozinhar com sintomas de depressão, ansiedade e a coexistência de ambos os quadros em idosos.
Métodos
O estudo utilizou dados da oitava onda do Chinese Longitudinal Healthy Longevity Survey, uma investigação nacional que coleta informações sobre características demográficas, estilo de vida, condições domiciliares, uso de combustíveis domésticos e estado de saúde de idosos na China. A análise final incluiu 9.243 participantes com 65 anos ou mais.
A exposição ao mofo foi avaliada por meio da pergunta: “Sua casa frequentemente apresenta odor de mofo ou cheiro de bolor?”. Os participantes que responderam “sim” foram classificados como expostos a ambiente com mofo. Embora essa abordagem não substitua uma medição microbiológica direta, os autores justificam que o odor persistente de bolor é um indicador razoável de presença de mofo em estudos populacionais, especialmente quando medições ambientais objetivas não estão disponíveis.
O uso de combustíveis domésticos foi avaliado por questionário. Os participantes foram classificados como usuários de combustíveis limpos quando relataram uso de gás, eletricidade ou energia solar para cozinhar. O uso de carvão, coque, lenha, palha ou carvão vegetal foi classificado como uso de combustível sólido.
A depressão foi avaliada pela escala CES-D-10, considerando pontuação igual ou superior a 10 como indicativa de sintomas depressivos clinicamente significativos. A ansiedade foi avaliada pela escala GAD-7, considerando pontuação igual ou superior a 5 como indicativa de sintomas ansiosos. A coexistência de depressão e ansiedade foi definida pela presença simultânea dos dois quadros.
Principais resultados
Entre os 9.243 idosos avaliados, a prevalência de sintomas depressivos foi de 13,61%, enquanto a prevalência de sintomas de ansiedade foi de 11,79%. A exposição ao mofo foi relatada por 13,40% dos participantes, e 28,65% utilizavam combustíveis sólidos para cozinhar.
Os resultados mostraram associação significativa entre exposição ao mofo e maior chance de sintomas de saúde mental. Idosos expostos ao mofo apresentaram maior chance de depressão, ansiedade e coexistência de depressão e ansiedade quando comparados aos não expostos. As razões de chance ajustadas foram:
| Desfecho | Associação observada em pessoas expostas ao mofo |
|---|---|
| Depressão | OR = 2,26 (IC95%: 1,93–2,63) |
| Ansiedade | OR = 2,11 (IC95%: 1,80–2,48) |
| Depressão + ansiedade | OR = 2,58 (IC95%: 2,10–3,16) |
Quando os autores analisaram os tipos de combustíveis, observaram que carvão/coque, carvão vegetal e lenha/palha estiveram associados a maior chance de sintomas depressivos. O uso de lenha ou palha também esteve associado a maior chance de ansiedade e coexistência de depressão e ansiedade.
A análise combinada mostrou que idosos expostos simultaneamente ao mofo e ao uso de combustíveis sólidos apresentaram risco ainda maior de sintomas de saúde mental quando comparados ao grupo sem mofo e com uso de combustíveis limpos. As razões de chance ajustadas foram de 2,44 para depressão, 2,25 para ansiedade e 2,83 para coexistência de depressão e ansiedade.
Discussão
Os achados reforçam que a qualidade do ambiente interno deve ser compreendida como um determinante relevante da saúde integral. O mofo, frequentemente tratado apenas como um problema estético ou de manutenção predial, pode representar uma exposição ambiental com repercussões amplas. Além de sua relação já conhecida com sintomas respiratórios, rinite, asma, alergias e infecções, o estudo sugere uma possível associação com sintomas depressivos e ansiosos em idosos.
Os autores discutem algumas hipóteses plausíveis, embora os mecanismos envolvidos ainda não estejam totalmente esclarecidos. A exposição ao mofo pode envolver inalação de esporos, fragmentos fúngicos, compostos orgânicos voláteis microbianos e micotoxinas. Esses agentes podem desencadear respostas inflamatórias, reações alérgicas e efeitos imunológicos. Há também hipóteses neurobiológicas, incluindo ativação imune no hipocampo, redução da neurogênese e desregulação do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, mecanismos potencialmente associados a sintomas de depressão, ansiedade, memória e estresse.
Além da via biológica, há uma dimensão psicossocial importante. Viver em uma residência com cheiro persistente de mofo, umidade e sinais visíveis de degradação pode reforçar a percepção de insegurança, insalubridade e perda de controle sobre o próprio ambiente. Em idosos, essa situação pode ser agravada por limitações físicas, dificuldades financeiras, isolamento social e menor capacidade de realizar manutenção domiciliar.
No caso dos combustíveis sólidos, a associação com depressão e ansiedade pode estar relacionada à exposição crônica a poluentes emitidos durante a queima, como material particulado fino, gases irritantes e compostos tóxicos. O artigo destaca que a exposição ao material particulado pode contribuir para inflamação sistêmica e estresse oxidativo, mecanismos cada vez mais investigados na relação entre poluição do ar e saúde mental.
Implicações para qualidade do ar interior
Este estudo amplia a compreensão sobre os impactos da qualidade do ar interno ao mostrar que ambientes domiciliares contaminados por mofo e poluentes da combustão não devem ser avaliados apenas pela presença de sintomas respiratórios imediatos. A exposição crônica em ambientes internos pode afetar múltiplas dimensões da saúde, incluindo bem-estar emocional, funcionalidade, qualidade de vida e vulnerabilidade psicossocial.
Para a prática de prevenção, o estudo reforça a necessidade de identificar sinais precoces de umidade e contaminação fúngica, como odor de bolor, manchas em paredes, tetos ou móveis, infiltrações, condensação e ventilação insuficiente. A simples remoção superficial do mofo, sem correção da fonte de umidade, tende a ser insuficiente, pois o problema pode retornar e manter a exposição dos ocupantes.
Também é importante considerar a transição para fontes de energia mais limpas, especialmente em populações vulneráveis. Embora o estudo tenha sido realizado na China, suas conclusões são relevantes para outros contextos onde ainda há uso de lenha, carvão ou biomassa em ambientes domésticos, principalmente em áreas rurais, periurbanas ou em condições de vulnerabilidade socioeconômica.
Recomendações práticas para a promoção de ambientes internos mais saudáveis:
- Controlar a umidade na origem, identificando e corrigindo infiltrações, vazamentos, condensação e falhas de impermeabilização.
- Melhorar a ventilação dos ambientes, sempre que possível, favorecendo renovação do ar e redução da umidade acumulada.
- Evitar a permanência de materiais úmidos ou mofados, como móveis, tecidos, papéis, tapetes e objetos armazenados em locais sem ventilação.
- Realizar limpeza e remediação adequada do mofo, com atenção especial a idosos, crianças, pessoas com asma, imunossuprimidos e indivíduos com doenças crônicas.
- Reduzir ou eliminar o uso de combustíveis sólidos como lenha em ambientes internos, priorizando fontes mais limpas de energia para cocção.
- Monitorar sintomas de saúde em ambientes com mofo, incluindo não apenas tosse, rinite, chiado e alergias, mas também fadiga, alterações do sono, irritabilidade, ansiedade e sintomas depressivos.
- Integrar qualidade do ar interior às estratégias de cuidado de idosos, especialmente em domicílios com baixa ventilação, umidade persistente ou vulnerabilidade social.
Conclusão
O estudo de Ma e colaboradores contribui para uma visão mais ampla da qualidade do ar em ambientes internos, ao demonstrar que a exposição ao mofo e o uso de combustíveis sólidos podem estar associados a maior prevalência de depressão, ansiedade e coexistência desses sintomas em idosos. Os resultados reforçam a importância de intervenções preventivas sobre ambientes internos, especialmente em residências de populações vulneráveis.
Para além do desconforto, do odor e dos danos materiais, o mofo deve ser reconhecido como um indicador de risco ambiental à saúde. Da mesma forma, a poluição gerada por combustíveis sólidos em ambientes domésticos deve ser compreendida como um problema de saúde pública. Melhorar a qualidade do ar interno é, portanto, uma estratégia de prevenção, promoção da saúde e cuidado integral, particularmente em uma sociedade que envelhece e na qual as pessoas passam grande parte do tempo dentro de ambientes fechados.
Referência
MA, Xinyan; ZHAO, Hanqing; WANG, Yan; HOU, Mengdi; LIU, Wei; SUN, Minghui. Association of mold exposure and solid household fuel use with depression and anxiety among older adults in China. Environmental Health, v. 24, artigo 50, 2025. DOI: 10.1186/s12940-025-01193-4.
