A luz ultravioleta do tipo C (UVC) é uma tecnologia consolidada há décadas na descontaminação de ambientes, justamente por atuar onde muitos protocolos tradicionais falham: na redução contínua da carga microbiológica sem deixar resíduos químicos.
Seu mecanismo é amplamente descrito na literatura científica — a radiação UVC promove dano fotônico ao DNA e RNA de microrganismos, inativando sua capacidade de replicação. Diretrizes técnicas da ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers) reconhecem sua aplicação em sistemas HVAC tanto para controle de biofilmes em serpentinas quanto para mitigação microbiológica complementar ao sistema de ventilação.
Dois exemplos ajudam a situar o tema com clareza. O primeiro está nos biofilmes que se formam em serpentinas de sistemas de refrigeração e climatização — estruturas complexas de microrganismos aderidos a superfícies úmidas que comprometem eficiência energética, favorecem proliferação fúngica e impactam diretamente a qualidade do ar.
O segundo exemplo vem da aplicação hospitalar, onde a UVC é empregada como camada adicional de desinfecção ambiental em áreas críticas, sempre como complemento — e não substituição — à ventilação adequada e à filtração de alta eficiência.
O que estamos vendo agora é a evolução dessa tecnologia para um território ainda mais estratégico: a cadeia de alimentos frescos.
O estudo da Embrapa anunciado neste mês: o que muda com a UVC modulada
A Embrapa divulgou resultados que elevam essa discussão a um novo patamar. Publicado na revista científica Horticulturae, o estudo demonstrou que a luz UVC modulada por frequência reduziu a incidência e a severidade da antracnose na goiaba — principal doença pós-colheita da fruta — sem causar queimaduras na casca e com potencial de aplicação em escala comercial.
O ponto central aqui não é apenas “usar UVC”, mas como usar. A inovação envolve a modulação da frequência da radiação, com melhor desempenho observado em torno de 30 Hz, o que permitiu aumentar a eficiência no controle do fungo Colletotrichum gloeosporioides sem elevar a dose total de radiação.
Essa diferença é técnica — mas estratégica. Ao otimizar a frequência, o estudo conseguiu maior efeito microbiológico com menor estresse fisiológico ao fruto. Em outras palavras, sai o modelo “mais dose = mais controle” e entra o modelo “mais inteligência = mais eficiência”.
Benefícios observados: vida útil maior com manutenção de qualidade
Além do controle do patógeno, o estudo mostrou ganhos diretos na qualidade pós-colheita. As goiabas tratadas mantiveram por mais tempo a coloração verde da casca, apresentaram menor perda de firmeza e exibiram redução da taxa respiratória, indicando metabolismo mais lento e retardo no amadurecimento.
Para quem opera packing houses, armazenamento refrigerado e varejo, esses dados não são apenas técnicos: são econômicos. Vida útil maior significa menor descarte, maior previsibilidade logística e melhor margem operacional. Segurança microbiológica e desempenho comercial deixam de ser variáveis isoladas e passam a caminhar juntos.
Por que isso é uma ótima notícia: a tecnologia tende a avançar para outros alimentos
Quando uma tecnologia física demonstra simultaneamente controle de doença pós-colheita e preservação de atributos comerciais, o caminho natural é sua expansão para outras frutas e produtos suscetíveis a patógenos fúngicos. A própria Embrapa destaca a necessidade de testes em escala comercial para ajustar parâmetros como tempo de exposição, distância da fonte e integração às linhas de beneficiamento — um passo típico de tecnologias que já ultrapassaram a fase exploratória.
Esse movimento acompanha uma tendência global: substituição progressiva de intervenções químicas por métodos físicos validados cientificamente.
Alternativa limpa: menos químicos e mais aceitação de mercado
A UVC modulada se encaixa perfeitamente no reposicionamento da indústria de alimentos frente às pressões regulatórias e às exigências de mercados importadores. A redução do uso de fungicidas não é apenas uma pauta ambiental — é uma questão de competitividade internacional.
Tratamentos físicos eficazes reduzem resíduos químicos, fortalecem a narrativa ESG e ampliam a aceitação de mercado. Não se trata apenas de sustentabilidade; trata-se de acesso a mercados mais exigentes.
Qualidade do ar como camada de proteção e o próximo passo para alimentos frescos
Controlar o patógeno na superfície do alimento é essencial. Mas ignorar o ambiente onde ele é manipulado é um erro estratégico. Em áreas de processamento, embalagem, câmaras frias e logística, o ar funciona como vetor invisível de contaminação cruzada, transportando esporos e microrganismos entre superfícies, equipamentos e produto.
Estudos sobre qualidade do ar em ambientes industriais indicam que a carga microbiológica aérea pode impactar diretamente a segurança do alimento, especialmente em processos pós-colheita. É nesse contexto que tecnologias ativas de qualidade do ar, como a ActivePure, assumem papel complementar relevante. Ao atuar continuamente na redução da carga microbiológica ambiental, essas soluções ajudam a mitigar riscos de recontaminação e a fortalecer a redundância sanitária da operação.
Enquanto a UVC modulada atua diretamente no produto, tecnologias ambientais atuam no ecossistema onde ele circula. São camadas distintas de controle — e, quando integradas, elevam o padrão de segurança.
Com o avanço da UVC modulada e sua provável expansão para outros alimentos além da goiaba, o setor de alimentos frescos tende a se beneficiar de um ecossistema tecnológico mais completo: de um lado, tratamentos físicos aplicados na pós-colheita; de outro, tecnologias de qualidade do ar atuando continuamente no ambiente produtivo.
No encontro dessas duas frentes, a indústria ganha mais previsibilidade, mais robustez sanitária e menor dependência de soluções corretivas.
Porque, cada vez mais, segurança alimentar começa pelo que não se vê — inclusive no ar.
Referências Técnicas
- Embrapa – Estudo sobre uso de UVC modulada para controle de antracnose em goiaba. https://www.embrapa.br/
- Horticulturae (MDPI) – Publicação científica sobre UVC modulada na pós-colheita de goiaba. https://www.mdpi.com/journal/horticulturae
- ASHRAE – Applications of UV-C in HVAC Systems. https://www.ashrae.org/technical-resources/filtration-disinfection
- Kowalski, W. (2010). Ultraviolet Germicidal Irradiation Handbook. Springer.
