Poluição do ar na infância pode comprometer a cognição por toda a vida, revela novo estudo internacional

19 de janeiro de 2026

A relação entre qualidade do ar e saúde humana costuma ser discutida a partir de seus efeitos imediatos: doenças respiratórias, cardiovasculares ou agravamento de condições crônicas. No entanto, um estudo recente amplia de forma significativa esse debate ao demonstrar que a exposição à poluição do ar em ambientes internos durante a infância pode impactar negativamente a cognição décadas depois, na meia-idade e na velhice.

Publicado em outubro de 2025, o estudo “The long arm of childhood: The association between early-life indoor air pollution exposure and cognitive performance in later life” foi conduzido por Xu Zong, pesquisador vinculado ao Helsinki Institute for Demography and Population Health e ao Max Planck – University of Helsinki Center for Social Inequalities in Population Health. A pesquisa é considerada a primeira a estabelecer, de forma robusta, uma associação entre poluição do ar indoor na infância e desempenho cognitivo na vida adulta tardia, utilizando dados nacionais representativos.

Por que esse estudo importa hoje

Os achados reforçam uma mensagem central: a qualidade do ar em ambientes internos na infância é um determinante silencioso, porém poderoso, da saúde cognitiva ao longo da vida. Em um mundo que envelhece rapidamente, compreender e mitigar fatores de risco de longo prazo torna-se estratégico.

A transição do uso de combustíveis sólidos para fontes de energia mais limpas, aliada a soluções eficazes de controle e purificação do ar em ambientes internos, não é apenas uma medida ambiental ou energética. Trata-se de uma estratégia de saúde pública intergeracional, com potencial de proteger o desenvolvimento cognitivo das crianças hoje e preservar a autonomia e a qualidade de vida das populações no futuro.

Ao evidenciar que os efeitos da poluição do ar começam cedo e se acumulam ao longo da vida, este estudo amplia o debate sobre qualidade do ar e reforça a necessidade de olhar para o ambiente construído como um componente central da saúde humana.

Onde e como o estudo foi realizado

A análise foi baseada em dados de 7.161 adultos com 45 anos ou mais, extraídos de uma base nacional representativa da China, país onde o uso de combustíveis sólidos — como carvão e lenha — para cozinhar foi historicamente comum, sobretudo em populações de baixa renda.

Para lidar com a complexidade da relação entre exposição ambiental precoce e cognição décadas depois, o estudo utilizou uma abordagem estatística avançada conhecida como causal forest. Esse método permite capturar relações não lineares, estimar efeitos médios do tratamento e identificar variações importantes entre subgrupos populacionais, mesmo após o controle rigoroso de fatores de confusão.

O principal achado: a infância deixa marcas duradouras no cérebro

Os resultados mostram que indivíduos expostos à poluição do ar indoor ao longo da infância apresentaram, em média, desempenho cognitivo significativamente inferior na vida adulta, mesmo décadas após o fim da exposição. A diferença observada foi de –1,11 pontos no escore cognitivo (IC 95%: –1,15 a –1,07), um efeito consistente e estatisticamente robusto.

Quando analisados domínios específicos da cognição, o impacto negativo foi identificado principalmente em:

  • memória episódica, relacionada à capacidade de lembrar eventos e informações recentes;
  • integridade mental, que inclui orientação, atenção e habilidades cognitivas básicas.

Esses resultados reforçam a ideia de que a poluição do ar não afeta apenas o sistema respiratório, mas também o desenvolvimento e a manutenção das funções cerebrais ao longo da vida.

Como a poluição do ar na infância afeta a cognição décadas depois

Um dos pontos centrais do estudo foi a investigação dos mecanismos mediadores dessa associação. Os resultados indicam que o impacto da poluição do ar indoor na infância se manifesta por múltiplas vias ao longo do curso de vida.

Caminhos biológicos

Dois fatores se destacaram como mediadores significativos:

  • Índice de massa corporal (IMC)
  • Limitações em atividades da vida diária (ADL)

Esses achados sugerem que a exposição precoce à poluição do ar pode comprometer a saúde física ao longo do tempo, criando um ambiente biológico menos favorável à preservação das funções cognitivas.

Curiosamente, a inflamação sistêmica, medida por proteína C-reativa (PCR), não se mostrou um mediador relevante nesse contexto. Os autores sugerem que exposições prolongadas desde a infância podem levar a adaptações fisiológicas distintas daquelas observadas em exposições agudas ou tardias.

Caminhos socioeconômicos

O estudo também identificou mediação significativa por fatores socioeconômicos, especialmente:

  • nível educacional
  • renda na vida adulta

Esses resultados dialogam diretamente com a teoria da vantagem e desvantagem cumulativa, segundo a qual exposições adversas precoces podem colocar indivíduos em trajetórias de vida menos favoráveis, com impactos duradouros sobre oportunidades educacionais, mobilidade econômica e, consequentemente, saúde cognitiva.

Quem é mais vulnerável aos efeitos de longo prazo

A análise por subgrupos revelou que o impacto da poluição do ar indoor na infância não é homogêneo. Os efeitos foram mais intensos em:

  • homens
  • indivíduos com histórico de tabagismo
  • indivíduos com histórico de consumo de álcool

Os autores sugerem que fatores como diferenças neuroendócrinas, respostas imunológicas e efeitos cumulativos de estresse oxidativo podem explicar essa maior vulnerabilidade. O achado reforça a importância de considerar interações entre exposições ambientais e estilo de vida ao longo do tempo.

Limitações e cuidados na interpretação

Como toda pesquisa observacional, o estudo apresenta limitações importantes. A exposição ao uso de combustíveis sólidos foi baseada em recordação retrospectiva, o que pode introduzir viés de memória. Além disso, apenas cerca de 4% da amostra nunca teve exposição a combustíveis sólidos na infância, o que exige cautela na comparação entre grupos.

Os próprios autores destacam que os resultados não devem ser interpretados como prova causal definitiva, mas sim como evidência consistente de uma associação relevante, que merece atenção de pesquisadores, gestores públicos e profissionais da saúde.

 

 

Fonte:  https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0277953625009931

 

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