Mofo, umidade e poluição do ar interno: impacto nas infecções respiratórias em crianças

10 de fevereiro de 2026

Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública – Fiocruz Bahia

 

Contexto

As infecções respiratórias continuam entre as principais causas de adoecimento na infância. Embora fatores clínicos e infecciosos sejam amplamente discutidos, o papel do ambiente domiciliar — onde crianças passam grande parte do tempo — ainda é subestimado nas estratégias de prevenção.

Este boletim apresenta e discute os principais achados de um estudo epidemiológico recente, publicado no European Journal of Epidemiology (2024), que avaliou de forma sistemática a relação entre exposições residenciais específicas — com destaque para mofo e umidade — e o risco de infecções respiratórias em crianças de 11 e 12 anos.

O estudo

O trabalho analisou dados da Danish National Birth Cohort, uma das maiores coortes populacionais da Europa, envolvendo 42.720 crianças acompanhadas até os 11–12 anos de idade.

Artigo de referência:
Residential exposure to mold, dampness, and indoor air pollution and risk of respiratory tract infections: a study among children ages 11 and 12 in the Danish National Birth Cohort
Groot J. et al.
European Journal of Epidemiology (2024; 39:299–311)
DOI: 10.1007/s10654-024-01101-z

Exposições ambientais avaliadas

Os autores investigaram múltiplos fatores residenciais, isoladamente e em combinação:

– Mofo e umidade visíveis no domicílio
– Uso de fogão a gás
– Queima de velas (verão e inverno)
– Uso de lareira
– Presença de cães e gatos
– Residência em área rural ou fazenda

Além disso, foi aplicada análise fatorial para identificar padrões combinados de exposição, incluindo um componente específico relacionado a mofo e umidade.

Desfechos de saúde analisados

– Resfriado comum
– Influenza
– Amigdalite
– Pneumonia diagnosticada por médico
– Conjuntivite

Principais resultados

O sinal mais consistente e robusto do estudo foi observado para mofo e umidade no ambiente domiciliar.

Crianças expostas apresentaram maior ocorrência de:

Resfriado comum: IRR 1,09 (IC95% 1,07–1,12)
Influenza: IRR 1,10 (1,05–1,15)
Amigdalite: IRR 1,19 (1,10–1,28)
Conjuntivite: IRR 1,16 (1,02–1,32)

Para pneumonia diagnosticada por médico, observou-se tendência de aumento, embora com maior incerteza estatística.

Interpretação em saúde pública

Os achados reforçam que umidade e mofo não devem ser tratados como problemas secundários do ambiente domiciliar.

Do ponto de vista biológico, a plausibilidade é consistente: ambientes úmidos favorecem inflamação das vias aéreas, podem comprometer a imunidade local e aumentar a suscetibilidade a infecções respiratórias recorrentes, especialmente na infância.

O grande tamanho amostral, a consistência dos resultados e a abordagem multiexposição tornam a evidência particularmente relevante para políticas de prevenção ambiental.

Como limitação, trata-se de estudo observacional com dados autorreferidos, o que impede inferência causal individual definitiva. Ainda assim, a convergência entre magnitude do efeito, coerência biológica e robustez estatística torna os resultados altamente acionáveis.

Mensagem-chave

Mofo e umidade em ambientes residenciais não são apenas questões estéticas ou de conforto.

São marcadores ambientais associados a maior carga de infecções respiratórias na infância, com impacto potencial sobre consultas médicas, absenteísmo escolar e uso de antibióticos.

Controlar fontes de umidade, garantir ventilação adequada e prevenir o crescimento fúngico devem ser entendidos como medidas estruturais de promoção da saúde, especialmente em domicílios com crianças.

Integrar a qualidade do ar interior às estratégias de saúde infantil é um passo necessário para reduzir riscos evitáveis e desigualdades em saúde.

 

Referência

Groot J, Keller A, Sigsgaard T, Loft S, Andersen AMN.
Residential exposure to mold, dampness, and indoor air pollution and risk of respiratory tract infections: a study among children ages 11 and 12 in the Danish National Birth Cohort.
European Journal of Epidemiology. 2024;39(3):299–311.
doi:10.1007/s10654-024-01101-z.

 

 

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