Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz
Título do artigo: Indoor Air Design Parameters of Air Conditioners for Mold-Prevention and Antibacterial in Island Residential Buildings (IJERPH/MDPI, 2020).
Autores: Zhang, Xueyan, Jingyi Liang, Beibei Wang, Yang Lv, and Jingchao Xie.
Periódico: Int. J. Environ. Res. Public Health 2020, 17(19), 7316; https://doi.org/10.3390/ijerph17197316
Resumo
O boletim desse mês analisa um problema frequente — e muitas vezes tratado de forma improvisada — em parâmetros operacionais de climatização: quais faixas de temperatura e umidade relativa (UR) deveriam orientar o uso do ar-condicionado para reduzir risco de mofo (e também apoiar um efeito “antibacteriano”, nos termos do próprio trabalho). Os códigos usuais de HVAC priorizam zona de conforto humano, mas não necessariamente incorporam o “limiar de risco” para crescimento biológico em climas especiais como o insular. O artigo analisado combina revisão de literatura, estudo de campo e simulação. Na parte empírica, os autores aplicaram questionários e realizaram medições de parâmetros do ar interno (temperatura, umidade relativa, velocidade do ar e CO₂), na zona de respiração (1,1 m), com registros a cada cinco minutos, seguindo norma nacional citada no artigo. O contexto climático é apresentado como estruturalmente desfavorável ao controle de mofo: a temperatura média diária excede 26 °C em 276 dias do ano (75,6%) e a umidade relativa média mensal fica acima de 75%.
Introdução
Em regiões costeiras e tropicais, a combinação de calor mais umidade elevada cria um “ambiente perfeito” para o crescimento fúngico nas superfícies internas — sobretudo em paredes e pontos frios onde a umidade condensa. O estudo de Zhang e colaboradores parte exatamente dessa realidade em ilhas do sul da China (Nansha), onde o clima marinho é descrito como de alta temperatura, alta umidade relativa, alta salinidade e forte radiação solar, condições que favorecem a reprodução de mofo e, ao longo do tempo, podem deteriorar materiais e até a integridade de componentes construtivos.
A relevância sanitária aparece já no enquadramento conceitual do artigo: os autores lembram que a exposição prolongada ao mofo e seus metabólitos tem sido associada, na literatura, a asma, infecções respiratórias, dermatites e outras alergias, citando avaliações de organismos de referência (WHO) que sustentam a preocupação com ambientes úmidos e com mofo.
Métodos
O estudo combina três frentes: revisão, campo e simulação. Primeiro, os autores identificam, por revisão de literatura, os fungos mais comuns em edificações residenciais insulares naquele contexto. Em seguida, realizam levantamento por questionário e medições ambientais internas na zona de respiração (1,1 m do piso), registrando temperatura, umidade relativa, velocidade do ar e CO₂ em intervalos de cinco minutos, seguindo um padrão nacional chinês de qualidade do ar interior citado no texto.
O pano de fundo climático é forte e ajuda a entender por que o problema “não some” com medidas pontuais: o artigo mostra que a temperatura média diária excede 26 °C em 276 dias do ano, e que a UR média mensal do ano todo fica acima de 75% — ou seja, a umidade alta é estrutural, não episódica.
Por fim, o estudo usa modelagem/simulações para estimar risco de crescimento (incluindo a ideia de “linhas críticas” de temperatura e UR associadas a um limiar de crescimento anual definido pelos autores).
Resultados
O primeiro achado é quase um “retrato social” do problema. No uso do ar-condicionado, a temperatura interna relatada/observada em ambientes com aparelho ficou entre 22 °C e 28 °C (concentrando em 25 °C) e o período de maior operação foi de abril a outubro. Um dado que chama atenção — e conversa diretamente com a dinâmica da umidade — é que 86,1% das pessoas preferem desligar o ar-condicionado e abrir janelas à noite (mantendo o uso mais frequente durante o dia).
Na caracterização do mofo, o artigo reporta “contaminação grave” em 83,2% dos questionários (203), também concentrada de abril a outubro. Em termos de sintomas autorreferidos, são descritos percentuais para asma e para um conjunto de sintomas respiratórios e cutâneos (rinite/faringite, desconforto nasal e de garganta, rash), e os autores interpretam o conjunto como forte correlação entre mofo e doenças respiratórias naquele contexto (observacional e autorreferido).
No plano microbiológico, o artigo identifica como fungos dominantes Aspergillus e Penicillium, seguidos por Cladosporium.
Um dos pontos mais “aplicáveis” do estudo é a discussão sobre materiais. A conclusão resume a ordem de risco de crescimento de mofo em paredes (do menor para o maior): concreto armado → bloco de concreto aerado → agregado coralino → tijolo → madeira.
Por fim, a parte de simulações reforça uma mensagem que vale ouro para comunicação em saúde ambiental: quando a temperatura interna está na faixa típica de conforto humano, a umidade relativa tende a ser o motor principal do risco de mofo— e o estudo mostra crescimento (diâmetro anual) aumentando com temperatura e UR dentro das faixas analisadas.
| O que foi observado / modelado | O que isso sugere na prática |
|---|---|
| Clima com calor persistente e umidade relativa mensal acima de 75% | Sem controle ativo da umidade, o mofo tende a se tornar um problema crônico, e não apenas episódico. |
| 83,2% relataram contaminação grave; pico entre abril e outubro | A sazonalidade deve orientar a prevenção: inspeções, monitoramento e controle precisam ser reforçados no período quente e úmido. |
| Fungos dominantes: Aspergillus, Penicillium e Cladosporium | Perfil típico de ambientes úmidos; a estratégia central deve focar em redução de umidade e controle de poeira/sujidade depositada. |
| Maior risco por material: madeira e tijolo; menor risco: concreto | Habitação, projeto e manutenção importam: a escolha da envoltória influencia diretamente a vulnerabilidade ao mofo. |
| Uso observado: 86,1% desligam o ar-condicionado e abrem janelas à noite | Em climas muito úmidos, a recarga noturna de umidade pode comprometer o controle do mofo, mesmo em ambientes climatizados durante o dia. |
Discussão (Pontos de destaque)
1) “mofo” e relação com o uso do ar-condicionado.
No levantamento comportamental, a operação dos aparelhos se concentra de abril a outubro. E há um detalhe importante: 86,1% dos usuários relataram que preferem desligar o ar-condicionado e abrir janelas à noite, mantendo o uso mais frequente durante o dia.
Esse padrão é plausível do ponto de vista social e econômico, mas, em clima muito úmido, pode significar reintroduzir umidade noturna elevada — e isso conversa diretamente com as recomendações finais do artigo.
2) Fungos dominantes: o “top 3” do ambiente úmido.
Os autores concluem que, naquele cenário insular, os fungos dominantes identificados são Aspergillus, Penicillium e Cladosporium.
3) Material importa (e muito): a parede não é neutra.
Um dos achados mais práticos do estudo é a hierarquia de risco de crescimento de mofo conforme o material da parede. Do menor para o maior risco, a sequência apresentada é: concreto armado → bloco de concreto aerado → agregado coralino → tijolo → madeira.
Em outras palavras: não se trata apenas de “limpar mofo”; há uma vulnerabilidade de base associada à envoltória e ao material, o que recoloca o tema no campo de projeto, manutenção e políticas de habitação.
4) O paradoxo do ar-condicionado: resfriar não basta; é a umidade que decide.
Ao discutir as simulações, o artigo reforça algo que costuma ser subestimado: quando a temperatura interna fica na faixa típica de conforto (por exemplo, 24–28 °C), a umidade relativa tende a ser o principal motor do risco de mofo; e, portanto, o “modo de operação” importa tanto quanto o setpoint de temperatura.
A leitura mais potente do trabalho é que ele desmonta um equívoco comum: reduzir temperatura não é sinônimo de controlar mofo. Em climas quentes e úmidos, o mofo é, antes de tudo, um problema de umidade disponível. Isso reposiciona a solução: mais do que “colocar no 18 °C”, importa garantir desumidificação efetiva, reduzir infiltrações de umidade e tratar pontos de condensação/ponte térmica.
Os autores também fazem uma crítica implícita às rotinas e normas que olham apenas para a “zona de conforto humano”: se o projeto e a operação do HVAC ignoram o risco biológico, a climatização pode até produzir conforto térmico enquanto mantém (ou cria) condições para crescimento fúngico em superfícies críticas.
Implicações para políticas públicas, gestão predial e saúde ambiental
O artigo propõe parâmetros objetivos de operação e desenho para reduzir risco de mofo em residências insulares: temperatura entre 26 °C e 28 °C e umidade relativa entre 50% e 80% como faixa de projeto; e, como recomendação operacional enfática para evitar contaminação do ambiente climatizado, manter 26 °C e UR em 50%, com prioridade para a função de desumidificação (e, no texto, com a sugestão de uso contínuo).
Para o contexto brasileiro (especialmente litoral e Amazônia onde as umidades são mais elevadas), a mensagem pode ser traduzida em três “linhas de ação”:
- umidade como indicador-chave (monitorar UR e sinais de condensação, não só temperatura);
- intervenções de baixo custo e manutenção (vedações, correção de infiltrações, limpeza de drenos/bandejas, redução de pontes térmicas, ventilação adequada sem “importar umidade” em horários críticos);
- decisões de material e retrofit (quando possível, reduzir vulnerabilidade da envoltória, lembrando que o artigo encontra maior risco em madeira/tijolo do que em soluções em concreto).
Mensagem final
Em ambientes costeiros e úmidos, a estratégia mais robusta contra mofo não é “gelar mais”: é secar o ar e controlar a umidade, além de considerar materiais e pontos críticos da envoltória onde o risco pode persistir.
Referencia:
ZHANG, X.; LIANG, J.; WANG, B.; LV, Y.; XIE, J. Indoor Air Design Parameters of Air Conditioners for Mold-Prevention and Antibacterial in Island Residential Buildings. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 19, art. 7316, 2020. DOI: 10.3390/ijerph17197316. MDPI+1
