Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz
Qualidade do Ar em Ambientes Hospitalares
O boletim deste mês aborda um tema crucial e frequentemente subestimado dentro da gestão hospitalar: a presença de fungos viáveis no ar de ambientes assistenciais e o risco de aspergilose invasiva, especialmente em pacientes imunocomprometidos. Embora a imagem de um hospital seja a de um espaço estéril e protegido, a realidade microbiológica do ar interno revela um cenário mais complexo, onde ventilação, umidade, manutenção predial e circulação de pessoas moldam ecossistemas que podem colocar vidas em risco.
Tomamos como base o estudo Fungal Diversity and Aspergillus in Hospital Environments (Martínez-Herrera et al., 2016), que analisou de forma sistemática a presença de fungos aerotransportados em diferentes setores hospitalares ao longo de um ano.
O resultado é um alerta importante: mesmo em hospitais sem surtos aparentes de infecção, o ar pode carregar microorganismos capazes de causar doenças graves, sobretudo em pacientes com defesa imunológica diminuída — como transplantados, pacientes oncológicos, pós-COVID grave, usuários crônicos de corticosteroides e pacientes críticos internados em UTI.
O estudo mostrou que a carga fúngica é maior justamente nos setores onde o risco clínico é mais elevado: hematologia, UTI adulto e UTI pediátrica. Nesses locais, foram isolados gêneros como Cladosporium e Penicillium, associados a alergias respiratórias e sensibilização pulmonar. Mas o dado mais relevante foi a detecção de Aspergillus fumigatus — fungo termotolerante, capaz de crescer em tecidos humanos e que pode causar aspergilose pulmonar invasiva, uma infecção com letalidade entre 40% e 90% quando não diagnosticada precocemente.
Sua presença constante no ar não significa necessariamente falha na higienização de superfícies, mas indica a existência de reservatórios ambientais, como sistemas de climatização sem manutenção adequada, dutos com condensação, tetos rebaixados com infiltração e obras próximas sem contenção de poeira. Esse cenário é conhecido na literatura como contaminação silenciosa, porque persiste ao longo do tempo e raramente é percebida visualmente.
Título do artigo:
Fungal Diversity and Aspergillus in Hospital Environments
Ann Agric Environ Med. 2016; 23(2): 264–269
DOI: https://doi.org/10.5604/12321966.1203888
Autores:
Erick Obed Martínez-Herrera¹
Maria Guadalupe Frias De-León²
Esperanza Duarte-Escalante³
María del Carmen Calderón-Ezquerro⁴
María del Carmen Jiménez-Martínez⁵⁻⁶
Gustavo Acosta-Altamirano⁷
Facundo Rivera-Becerril⁸
Conchita Toriello³
María del Rocío Reyes-Montes³
¹ Doctorado en Ciencias Biológicas y de la Salud, Universidad Autónoma Metropolitana Xochimilco, México
² Division de Investigacion, Hospital Juarez de Mexico, Av. Instituto Politécnico Nacional, México
³ Departamento de Microbiología y Parasitología, Facultad de Medicina, Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), México
⁴ Centro de Ciencias de la Atmósfera, Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), México
⁵ Unidad de Investigación, Instituto de Oftalmología “Fundación de Asistencia Privada Conde de Valenciana, IAP”, México
⁶ Departamento de Bioquímica, Facultad de Medicina, Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), México
⁷ Instituto de Seguridad y Servicios Sociales de los Trabajadores del Estado, México
8 Departamento El Hombre y Su Ambiente, Universidad Autónoma Metropolitana Xochimilco, México
Ano de Publicação: 2016
Fonte: Ann Agric Environ Med
1. Introdução
A presença de fungos aerotransportados em ambientes hospitalares representa um importante desafio para o controle de infecções e para a segurança do paciente. Em setores que atendem pessoas com imunidade fragilizada — como unidades de terapia intensiva, hematologia e oncologia — até mesmo concentrações reduzidas de esporos podem desencadear infecções graves, como a aspergilose pulmonar invasiva. Essa condição é frequentemente subdiagnosticada e apresenta alta letalidade, variando entre 40% e 90% nos casos mais avançados.
Nesse contexto, a qualidade do ar interno torna-se elemento central do cuidado em saúde, especialmente em hospitais que atendem populações vulneráveis.
2. Métodos
O estudo analisado realizou coletas de aerossóis em áreas hospitalares internas utilizando dispositivos de aspiração para captura de fungos viáveis suspensos no ar. O material coletado foi cultivado em meio específico, permitindo a identificação morfológica e molecular dos fungos presentes.
As amostras foram obtidas em setores com diferentes perfis de risco clínico, incluindo UTI adulto, UTI pediátrica, enfermarias, ambulatórios e setores de hematologia. O monitoramento ocorreu ao longo de diferentes períodos do ano, permitindo avaliar variações sazonais e ambientais relacionadas à circulação de ar, umidade e atividade humana.
3. Resultados e Discussão
Os resultados mostraram que os fungos Penicillium, Cladosporium e Aspergillus foram recorrentes nos ambientes analisados. Contudo, a presença de Aspergillus fumigatus — capaz de colonizar tecidos humanos — foi o achado de maior relevância clínica. Sua detecção em setores de alto risco sugere que o ambiente hospitalar pode constituir uma fonte contínua de exposição para pacientes suscetíveis.
Áreas críticas, especialmente UTI e hematologia, apresentaram concentrações mais elevadas de fungos no ar. Esse padrão está relacionado a fatores estruturais como ventilação inadequada, umidade elevada, manutenção irregular de sistemas de climatização e movimentação de poeira, especialmente durante obras ou reparos prediais.
Tabela — Gêneros Fúngicos, Frequência, Ambiente e Relevância Clínica
| Gênero Fúngico | Setores com Maior Frequência | Características Ambientais Associadas | Relevância Clínica |
|---|---|---|---|
| Aspergillus fumigatus | Hematologia; UTI Adulto | Poeira, dutos com condensação, reformas próximas | Aspergilose pulmonar invasiva; alta letalidade |
| Penicillium spp. | UTI Pediátrica; áreas de internação geral | Umidade elevada em superfícies e filtros de ar | Rinite, sinusite e crise asmática |
| Cladosporium spp. | Ambulatórios e corredores | Ventilação natural e variação térmica | Alergias respiratórias; sensibilização pulmonar |
| Trichoderma spp. | Áreas de armazenamento e utilidades | Matéria orgânica e umidade persistente | Infecções oportunistas em imunossuprimidos |
| Leveduras (Yeasts) | Áreas de manipulação de alimentos | Introdução por mãos, superfícies e materiais | Infecções sistêmicas em imunossuprimidos |
4. Implicações para a Prática Hospitalar
O controle de fungos em ambientes hospitalares exige ações coordenadas entre engenharia clínica, manutenção predial, CCIH e equipes assistenciais. O monitoramento microbiológico regular do ar é fundamental para detectar tendências e possíveis fontes de contaminação.
A manutenção adequada dos sistemas de climatização — com controle de umidade, troca programada de filtros e inspeção periódica de dutos — é uma das defesas mais efetivas. Durante reformas, barreiras físicas e controle de fluxo de ar são indispensáveis para evitar dispersão de esporos.
A gestão preventiva é sempre mais eficiente — e menos custosa — do que a resposta a surtos.
5. Considerações Finais
A presença de fungos no ar hospitalar é invisível aos olhos, mas não aos pulmões dos pacientes. O estudo reforça que o controle da qualidade do ar deve ser entendido como parte essencial da segurança do paciente, especialmente aqueles em condição clínica vulnerável.
A exposição ocorre não apenas pela inalação direta, mas também pelo depósito de esporos em superfícies e equipamentos, ampliando o risco de infecção.
Medidas como monitoramento aeromicológico periódico, controle rígido da umidade (40–60%), limpeza técnica de dutos, filtros HEPA em áreas críticas e gestão integrada são pilares de um hospital seguro.
Mais do que um problema ambiental, trata-se de ética do cuidado: cada esporo controlado é uma infecção evitada.
Hospitais são lugares onde se busca recuperar a respiração — não perdê-la.
Referência:
Martínez-Herrera EO, Frías De-León MG, Duarte-Escalante E, Calderón-Ezquerro Mdel C, Jiménez-Martínez Mdel C, Acosta-Altamirano G, Rivera-Becerril F, Toriello C, Reyes-Montes Mdel R. Fungal diversity and Aspergillus species in hospital environments. Ann Agric Environ Med. 2016 Jun 2; 23(2):264-9. doi: 10.5604/12321966.1203888. PMID: 27294630.
