Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz
Boletim Técnico: Exposição a fungos e micotoxinas e sua relação com doenças no cérebro. O artigo de Ehsanifar et al. (2023), publicado no Journal of Integrative Neuroscience, discute em profundidade os efeitos da exposição a mofo e micotoxinas sobre o sistema nervoso central e a saúde mental. A revisão reúne evidências que demonstram como os fungos, especialmente em ambientes internos com umidade excessiva, liberam micotoxinas capazes de atravessar a barreira hematoencefálica (BBB), induzindo processos inflamatórios, estresse oxidativo, apoptose neuronal e alterações imunológicas.
Título do artigo: “Mold and Mycotoxin Exposure and Brain Disorders” Autores: Mojtaba Ehsanifar1,2,*, Reihane Rajati1 , Akram Gholami1 , Joseph P Reiss3 1. Torbat Jam Faculty of Medical Sciences, 9571786917 Torbat Jam, Iran 2. Iranian Center of Neurological Research, Neuroscience Institute, Tehran University of Medical Sciences, 1419733141 Tehran, Iran 3. Environmental Sciences at Certified Site Safety of New York, LLC, and International Institute of Environmental and Medical Studies, White Plains, NY 10603, USA
Ano de Publicação: 2023
Fonte: Journal Of Integrative Neuroscience
1. Introdução
A exposição ambiental a fungos e micotoxinas tem ganhado crescente atenção como um fator de risco significativo para doenças neurológicas e neuropsiquiátricas. Mofo é uma forma de fungo que se desenvolve em ambientes úmidos, tanto internos quanto externos, produzindo micotoxinas — metabólitos tóxicos que são inalados ou absorvidos pelo organismo. Essas substâncias podem atravessar a barreira hematoencefálica, gerando efeitos tóxicos diretos sobre o cérebro e desencadeando processos inflamatórios, neurodegenerativos e autoimunes.
As micotoxinas têm a capacidade de promover danos diretos ao cérebro, desencadeando disfunções cognitivas, desmielinização e doenças como esclerose múltipla (EM), encefalites e transtornos do espectro autista (TEA). O artigo enfatiza que a via olfatória é uma rota preferencial de entrada, afetando estruturas como o bulbo olfatório, hipocampo e córtex frontal.
Nas crianças, a exposição precoce é correlacionada com alterações no desenvolvimento neurológico, como déficits de atenção, alterações em potenciais evocados auditivos e visuais, além de níveis elevados de micotoxinas no soro e na urina. Em adultos, os efeitos incluem fadiga crônica, depressão, confusão mental (brain fog), alterações cognitivas e sintomas semelhantes à lesão cerebral traumática leve. Há também relato de disfunções motoras e distúrbios visuais, como neurite óptica desmielinizante.
O artigo apresenta uma revisão abrangente e atualizada, com base em múltiplos estudos experimentais, clínicos e epidemiológicos, sustentando a hipótese de que a exposição crônica a micotoxinas é um fator etiológico relevante para doenças neurológicas. A discussão sobre a ativação de mastócitos e sua associação com sintomas neuropsiquiátricos, incluindo depressão, autismo e síndrome de ativação mastocitária (MCAS), é particularmente inovadora e pouco explorada na literatura convencional.
Importante destacar que o artigo contribui significativamente para a compreensão dos efeitos sistêmicos da exposição ambiental a fungos e micotoxinas, integrando conceitos de neurociência, imunologia e saúde ambiental. Os achados têm implicações práticas para ambientes escolares, domicílios e locais de trabalho com histórico de umidade e danos por água. Profissionais de saúde devem considerar essa etiologia no diagnóstico diferencial de doenças neurodegenerativas, autoimunes e neuropsiquiátricas de difícil definição etiológica.
O artigo aponta para a necessidade de realizar mais ensaios clínicos controlados e protocolos padronizados de avaliação ambiental e biomarcadores biológicos pois a maioria dos estudos citados são observacionais ou estudos de caso.
Destaco a seguir os aspectos mais relevantes discutidos neste artigo.
2. Toxicidade das Micotoxinas
Micotoxinas são compostos produzidos por fungos dos gêneros Aspergillus, Penicillium e Fusarium. Entre os principais mecanismos de toxicidade estão a inibição da síntese de proteínas, dano ao DNA, estresse oxidativo, disfunções mitocondriais e alterações imunológicas. Estudos indicam que nanopartículas contendo micotoxinas estão presentes no ar de ambientes úmidos, com concentrações até 1000 vezes superiores ao número de esporos visíveis. A exposição crônica está associada a doenças como esclerose múltipla, autismo, encefalites, e distúrbios cognitivos.
3. Efeitos Neurológicos e Neuroinflamação
Micotoxinas como T-2, satratoxina G e ochratoxina A causam danos diretos aos neurônios por apoptose, necrose e neuroinflamação. Elas afetam principalmente o bulbo olfatório, hipocampo e substância negra, contribuindo para distúrbios de memória, depressão, doença de Parkinson e esclerose múltipla. Estudos demonstram a indução de resposta inflamatória com ativação de mastócitos, liberação de histamina e citocinas pró-inflamatórias, além da presença de autoanticorpos contra mielina e proteínas neuronais.
4. Efeitos em Crianças: Desenvolvimento Cognitivo e TEA
A exposição precoce ao mofo está fortemente associada a prejuízos no desenvolvimento neuropsicomotor e aumento na prevalência de transtornos do espectro autista (TEA). Estudos revelam que crianças expostas a ambientes úmidos apresentam alterações em potenciais evocados auditivos e visuais, além de maiores níveis de anticorpos séricos contra micotoxinas. Comparações entre grupos de crianças com TEA e controles indicam níveis significativamente mais altos de micotoxinas urinárias como ochratoxina A, aflatoxina M1 e fumonisina B1 no grupo com TEA.
5. Efeitos Neuropsiquiátricos em Adultos
Adultos expostos cronicamente a ambientes contaminados por mofo relatam sintomas como fadiga, confusão mental (‘brain fog’), perda de memória, depressão, ansiedade e distúrbios motores. Exames neuropsicológicos indicam padrões semelhantes à lesão cerebral traumática leve. Os efeitos também podem ser confundidos com transtornos psiquiátricos primários, dificultando o diagnóstico. Alguns estudos sugerem que fatores socioeconômicos e estresse ambiental contribuem para agravar os impactos psicológicos da exposição.
6. Diagnóstico e Monitoramento
O diagnóstico de doenças associadas à exposição a micotoxinas deve incluir avaliação clínica, inspeção ambiental e exames laboratoriais. A dosagem de anticorpos IgG e IgE contra micotoxinas no soro é o método mais confiável para detectar exposição crônica e sua relação com autoimunidade. Testes urinários não refletem necessariamente a carga corporal, pois micotoxinas alimentares são excretadas rapidamente. A presença de autoanticorpos sugere formação de neoantígenos e potencial desenvolvimento de doenças autoimunes e neurológicas.
7. Conclusões e Recomendações
A relação entre mofo, micotoxinas e disfunções neurológicas é sustentada por evidências robustas. Profissionais de saúde devem considerar a exposição ambiental como fator etiológico em casos de distúrbios cognitivos, neuropsiquiátricos e doenças autoimunes sem causa aparente. Recomenda-se a avaliação de ambientes úmidos, um rigoroso controle ambiental, educação sobre riscos ocupacionais, e uso de biomarcadores imunológicos no diagnóstico diferencial. Políticas públicas devem priorizar ambientes escolares e habitacionais saudáveis, especialmente em populações vulneráveis.
8. Referência
Mojtaba Ehsanifar, Reihane Rajati, Akram Gholami, Joseph P Reiss. Mold and Mycotoxin Exposure and Brain Disorders. J. Integr. Neurosci. 2023, 22(6), 137. https://doi.org/10.31083/j.jin2206137