Por Dra. Nelzair Vianna, PhD
Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz
Título do artigo: Climate Change and Medical Mycology
Autores: Sarah Sedik, Matthias Egger, Martin Hoenigl
Periódico: Infectious Disease Clinics of North America, 2025; 39(1):1–22.
DOI: 10.1016/j.idc.2024.11.002 PubMed+1
O boletim deste mês apresenta uma revisão que mostra como as mudanças
climáticas estão favorecendo fungos mais resistentes, virulentos e amplamente
distribuídos, aumentando o risco de infecções fúngicas – especialmente em
populações vulneráveis – e reforçando a importância do controle de umidade, do
manejo de mofo e da qualidade do ar interno como componentes essenciais da
adaptação climática em edifícios.
Apresentamos revisão recente sobre “Climate Change and Medical Mycology” e
discutimos o que isso significa para hospitais, escolas e outros ambientes internos que
precisam se preparar para um clima mais quente, úmido e cheio de desafios invisíveis
ao olhar.
Introdução
O artigo “Climate Change and Medical Mycology” discute como as mudanças climáticas estão transformando o campo da micologia médica, ao favorecer fungos mais termotolerantes, mais resistentes a antifúngicos e com capacidade de ocupar novos territórios geográficos. À medida que o planeta aquece e eventos extremos se tornam mais frequentes, fungos antes restritos a certas regiões ou condições ambientais passam a encontrar nichos adequados também em áreas urbanas, hospitais, escolas e outras edificações de uso coletivo.
Os autores ressaltam que esse processo não é abstrato: ele se traduz em aumento do risco de infecções fúngicas em populações vulneráveis, em maior complexidade terapêutica devido à resistência a antifúngicos e em novas exigências para a vigilância em saúde. Esse cenário dialoga diretamente com a agenda de qualidade do ar interno, pois grande parte da exposição a fungos ocorre justamente em ambientes fechados ou mal ventilados, muitas vezes com problemas crônicos de umidade e mofo.
Do ponto de vista da saúde planetária, o texto reforça que a crise climática também é uma crise do ambiente construído: as mesmas forças que intensificam ondas de calor, enchentes e queimadas alteram a distribuição e o comportamento de patógenos fúngicos, exigindo respostas integradas que combinem adaptação climática, infraestrutura predial adequada e controle de bioaerossóis em ambientes internos.
Métodos
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura em micologia médica e mudanças climáticas. Os autores sintetizam evidências recentes sobre quatro grandes eixos:
Emergência de novos patógenos fúngicos e aumento da termotolerância.
Relações entre mudanças climáticas, uso de fungicidas e resistência a antifúngicos.
Expansão geográfica de micoses endêmicas e alteração de padrões epidemiológicos.
Impacto de eventos extremos — como enchentes, tempestades, desertificação e queimadas — sobre o risco de infecções fúngicas.
A partir dessa síntese, o artigo propõe um arcabouço conceitual que conecta clima, ambiente, fungos e vulnerabilidade humana, incluindo exemplos de doenças fúngicas que já estão apresentando mudanças de distribuição e gravidade associadas ao clima.
Resultados
Os principais resultados da revisão podem ser organizados em três grandes dimensões: biológica, ecológica e clínica.
Na dimensão biológica, destaca-se que o aquecimento global atua como um “filtro térmico”, selecionando fungos capazes de tolerar temperaturas mais altas, próximas àquelas do corpo humano, o que potencialmente aumenta o número de espécies com capacidade de causar doença.
Na dimensão ecológica, os autores mostram que secas, alterações no uso do solo, perda de biodiversidade e poluição do ar interagem com o clima para favorecer fungos oportunistas e deslocar áreas endêmicas de doenças já conhecidas, como histoplasmose, coccidioidomicose e blastomicose. Isso significa que regiões que antes não eram consideradas de risco começam a registrar casos autóctones, exigindo atualização de protocolos clínicos e de vigilância.
Finalmente, na dimensão clínica, a revisão destaca o aumento da resistência a antifúngicos, impulsionado tanto por fatores climáticos quanto pelo uso extensivo de fungicidas na agricultura e no ambiente. Esse cenário torna as infecções fúngicas mais difíceis de tratar, especialmente em pacientes imunossuprimidos, internados em terapia intensiva ou idosos, e reforça a importância de estratégias preventivas, incluindo ambientes internos saudáveis.
| Mecanismo relacionado ao clima | Impacto sobre fungos | Risco para saúde humana / IAQ | Exemplos citados ou discutidos* |
|---|---|---|---|
| Aumento da temperatura média e ondas de calor | Seleção de fungos mais termotolerantes | Maior chance de fungos tolerarem a temperatura corporal e causarem doença | Fungos ambientais emergentes e discussão sobre Candida auris |
| Enchentes, tempestades, desastres naturais | Aumento da carga de esporos em solos, detritos e materiais úmidos | Maior exposição a bioaerossóis fúngicos em casas, escolas e hospitais após eventos extremos | Relatos de surtos de infecções fúngicas após desastres climáticos |
| Secas, queimadas e tempestades de poeira | Mobilização de partículas contendo fungos | Exposição respiratória elevada, especialmente em populações vulneráveis e urbanas | Alterações em áreas endêmicas de coccidioidomicose e outras micoses |
| Uso intensivo de fungicidas e pressão seletiva ambiental | Seleção de linhagens resistentes a antifúngicos | Falha terapêutica, necessidade de drogas mais tóxicas e caras; maior importância da prevenção ambiental | Resistência em fungos filamentosos e leveduras de importância clínica |
Embora o artigo de Sedik et al. foque no panorama geral da micologia médica e clima, ele dialoga com literatura recente sobre resistência antifúngica e fungos emergentes em contexto de aquecimento global.
Discussão
A discussão proposta pelos autores deixa claro que a micologia médica entrou em uma nova era, marcada pela convergência entre mudanças climáticas, degradação ambiental, globalização e desigualdades sociais. A combinação desses fatores aumenta tanto a probabilidade de exposição a fungos patogênicos quanto a gravidade das infecções, particularmente em pessoas com condições crônicas, imunossupressão ou acesso limitado a diagnóstico e tratamento especializado.
Essa convergência tem implicações diretas para o ambiente construído. Edificações que já sofrem com problemas de ventilação inadequada, infiltrações, condensação em sistemas de climatização e presença crônica de mofo tornam-se ainda mais críticas em um cenário de aquecimento global e eventos climáticos extremos. Após enchentes e alagamentos, por exemplo, a reocupação de edifícios sem uma adequada avaliação e remediação de fungos e materiais contaminados pode resultar em surtos de sintomas respiratórios, exacerbação de asma e, em casos específicos, aumento do risco de infecções fúngicas invasivas em grupos vulneráveis.
Os autores conectam essas evidências com a necessidade de repensar políticas de adaptação climática, incorporando explicitamente o risco fúngico. Em outras palavras, não basta planejar para calor, chuva e eventos extremos; é preciso planejar também para o “pós-evento” dentro dos prédios, garantindo que escolas, hospitais, abrigos e residências tenham estratégias claras de controle de umidade, remoção de materiais danificados e monitoramento da qualidade do ar interno.
Implicações para a qualidade do ar interno e para a Ecoquest
Para a agenda da Ecoquest, esse artigo reforça três mensagens centrais. Em primeiro lugar, o controle de umidade deixa de ser apenas uma exigência de conforto e manutenção predial para se tornar uma estratégia concreta de redução de risco em um contexto de mudanças climáticas. Intervenções que evitam infiltrações, corrigem condensação em dutos, removem materiais porosos molhados e previnem o crescimento de biofilmes em sistemas de ar-condicionado contribuem diretamente para reduzir a carga de fungos no ambiente interno.
Em segundo lugar, o monitoramento da qualidade do ar interno deve ser entendido de forma ampliada. Além de parâmetros como CO₂ e material particulado, é fundamental considerar indicadores indiretos de risco biológico, como presença de odores de mofo, histórico de alagamentos, padrões de adoecimento recorrente em determinados setores e inspeções periódicas de superfícies e equipamentos. Em ambientes de saúde, escolas e instituições de longa permanência, essas práticas ganham importância estratégica, pois o perfil dos fungos está se tornando mais agressivo e, muitas vezes, mais resistente às terapias disponíveis.
Por fim, o artigo reforça o papel dos ambientes internos saudáveis como componente da adaptação climática justa. Em territórios vulneráveis — com moradias precárias, infraestrutura deficiente e maior exposição a desastres climáticos — investir em soluções de ventilação adequada, filtragem, desumidificação e remediação de mofo significa reduzir desigualdades em saúde e proteger justamente quem mais sofre com a crise climática. Projetos de qualidade do ar interno voltados para hospitais públicos, escolas em áreas de risco e edifícios que atendem populações vulneráveis se alinham diretamente com as evidências apresentadas por Sedik e colaboradores.
| Contexto | Mensagem prática principal |
|---|
| Hospitais e serviços de saúde | Controle rigoroso de umidade, inspeção de sistemas de climatização e remediação rápida de mofo são essenciais para prevenir infecções fúngicas em um clima mais quente. |
| Escolas, escritórios e ambientes de trabalho | Manter ventilação adequada, evitar infiltrações crônicas e revisar edificações após eventos extremos ajuda a proteger ocupantes de exposição prolongada a bioaerossóis fúngicos. |
| Gestores públicos, projetistas e tomadores de decisão | Políticas de adaptação climática devem incluir explicitamente o risco fúngico e a qualidade do ar interno, com prioridade para territórios e populações mais vulneráveis. |
Referencia:
Referência do artigo
SEDIK, S.; EGGER, M.; HOENIGL, M. Climate Change and Medical Mycology. Infectious
Disease Clinics of North America, v. 39, n. 1, p. 1–22, 2025. doi: 10.1016/j.idc.2024.11.002.
Sarah Sedik, Matthias Egger, Martin Hoenigl, Climate Change and Medical Mycology,
Infectious Disease Clinics of North America, Volume 39, Issue 1, 2025, Pages 1-22, ISSN
0891-5520, ISBN 9780443316821, https://doi.org/10.1016/j.idc.2024.11.002.
(https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0891552024000771)Keywords: Fungal
infections; Climate change; Natural disasters; Medical mycology

Figura 1. O impacto das mudanças climáticas no fungo e no hospedeiro e as consequências
no contexto clínico.

Figura 2. As mudanças climáticas exacerbam as desigualdades e os determinantes sociais da saúde, resultando em um impacto desproporcional sobre as doenças fúngicas. Nota: As linhas do mapa delimitam as áreas de estudo e não representam necessariamente as fronteiras nacionais aceitas.